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Colin Farrell fala sobre nova temporada de 'Sugar' e diferenças entre ele e seu personagem

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Pacto de Sangue, À Beira do Abismo, O Crepúsculo dos Deuses, A Morte num Beijo, Chinatown. A cidade de Los Angeles foi cenário de muitos filmes de crime, com personagens moralmente ambíguos e cínicos. A série Sugar, cuja segunda temporada estreia no Apple TV nesta sexta-feira, 19, com episódios semanais, brinca com esse passado em um neo noir estrelado por Colin Farrell, indicado ao Oscar por Os Banshees de Inisherin (2022) e ao Emmy por Pinguim (2024).

Sugar é uma grande homenagem à cidade e aos filmes realizados nela, a sede da mítica Hollywood, que não apenas é um bairro como símbolo do cinema industrial feito nos Estados Unidos. Mas, na segunda temporada, o detetive particular John Sugar, interpretado por Farrell, abandona as regiões nobres como Bel-Air, Beverly Hills e os estúdios de cinema para percorrer Koreatown, Downtown e outros cantos menos glamurosos de Los Angeles.

"Há partes muito ricas culturalmente que são mexicanas, salvadorenhas, coreanas, que têm sua própria estética, música, comida, movimento", disse Farrell em mesa-redonda com a participação do Estadão. "LA é fascinante, e temos o privilégio de mostrar as diferenças e ecletismo desse lugar, o que torna a série mais interessante", completou o ator irlandês, que mora lá há 25 anos.

Se, na primeira temporada, que teve episódios dirigidos pelo brasileiro Fernando Meirelles, John Sugar investigava o sumiço da neta do dono de um grande estúdio de Hollywood, desta vez ele tenta encontrar Ji Moon (Raymond Lee), o irmão do boxeador Danny (Jin Ha). Os dois foram pequenos com a mãe da Coreia do Sul para os Estados Unidos e agora só têm um ao outro.

"A beleza é que a série leva uma temporada inteira para mergulhar em um grupo de pessoas e suas experiências. Assim Sugar consegue fazer retratos complexos e respeitosos", disse Ha em entrevista ao Estadão. Raymond Lee concordou. "O que imigrantes não querem é ser tratados como 'outros'. Somos pessoas como todas as outras, e a série consegue ser específica sobre as culturas sem ser apelativa. É um instantâneo, não uma explicação. Somos coreanos, com personalidades e corpos coreanos e não temos escolha porque é o que somos." Ji e Danny são irmãos que brigam, se metem em confusão, tentam sobreviver e realizar seus sonhos e, acima de tudo, se amam.

Os filmes antigos que aparecem em trechos misturados às cenas do presente em Sugar não refletiam a diversidade de Los Angeles. Na verdade, até hoje são raras as produções que trazem essa efervescência originada pelos diversos grupos que compõem a cidade. Los Angeles é formada majoritariamente por imigrantes - 47% da população é de latinos e seus descendentes, sejam mexicanos, salvadorenhos ou guatemaltecos, e 12% de asiáticos e seus descendentes, especialmente filipinos, coreanos, chineses e japoneses. É uma cidade onde existem Little Tokyo e Japantown, Chinatown, Koreatown, Filipino Town, Little Armenia, Tehrangeles, Thai Town.

Los Angeles é a Cidade dos Sonhos não apenas para candidatos a astros e estrelas vindos de todas as partes do mundo. Há espaço para gente como os irmãos Moon, que buscam outras maneiras de realizar os seus. "Queríamos mostrar que há outros tipos de sonhadores aqui", disse o showrunner Sam Catlin.

Série mergulha mais fundo no noir

Mergulhar na diversidade cultural de Los Angeles era inevitável, já que o próprio John Sugar é uma espécie de imigrante. (ATENÇÃO PARA OS SPOILERS DA PRIMEIRA TEMPORADA)

No final da primeira temporada, foi revelado que o personagem, que parecia meio deslocado, com uma fé inabalável no ser humano e uma decência infinita, é, na verdade, um extraterrestre. Com a divulgação de seu segredo, agora a série tem espaço para ir mais fundo no caso da vez, que deixa de ser um simples desaparecimento para trazer mais elementos do noir, como corrupção, traição e até uma femme fatale, Charlotte, interpretada por Laura Donnelly.

"Ele está muito solitário, porque ficou sozinho neste planeta", disse Farrell, referindo-se à partida dos outros alienígenas da Terra, após ameaças de terem seus segredos delatados. Sugar permaneceu, na esperança de reencontrar a irmã. "Mas esse processo de solidão faz com que comece sua humanização, com sentimentos românticos em direção a Charlotte e um fascínio pela violência, que o confunde."

Charlotte é uma mulher que ele conhece no bar do hotel onde mora. Ela é misteriosa, com cabelos em leves ondas, bem-vestida e maquiada, como uma femme fatale deve ser. "Adoro interpretar mulheres que não são óbvias de cara", disse a atriz. "Queria muito prestar tributo àquelas grandes atrizes dos anos 1930 e 1940, mas sem fazer um pastiche e sim uma personagem dos dias de hoje. Ela é muito independente e escolhe seus caminhos, é bastante feminina, mas está vivendo sua vida como se fosse um homem."

Por mais que esteja passando por transformações, John Sugar continua sendo íntegro, nada cínico, crente no ser humano. Por enquanto, ele destoa um pouco dos protagonistas do cinema noir. Sem ver diferenças de raça, etnia, cor de pele, religião, consegue enxergar a beleza do nosso mundo e a nossa própria. "Os filmes sobre alienígenas nos colocam diante de um espelho", disse Donnelly. "Gostamos do que vemos? A esperança é a de que possamos pausar e refletir sobre quem queremos ser e como gostaríamos de ser vistos." É curiosa a coincidência de a segunda temporada de Sugar chegar justamente quando Steven Spielberg usa extraterrestres para falar de nós em Dia D.

Ao contrário de seu personagem, Farrell não consegue ser tão otimista e achar que o ser humano é inerentemente bom. "Para mim é difícil conciliar isso com o que acontece no mundo", afirmou. "Mas o ser humano é capaz de generosidade, decência, compaixão e amor extraordinários, além de criatividade, música, poesia, cinema, dança, arte, basquete, curling, tênis. Seres humanos fazem grandes coisas. Construímos pontes para encontrar quem está do lado de lá. John Sugar acredita no ser humano, mesmo que cometamos erros e operemos a partir de traumas. Essa é sua crença, e uma das coisas lindas de interpretá-lo é habitar por um tempo alguém que acredita na decência da humanidade."

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