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Corregedoria apura menção de pagamento de R$ 100 mil a delegado por 'lavadores' do PCC

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A Corregedoria-Geral da Polícia Civil de São Paulo abriu um procedimento para apurar a menção a um pagamento de R$ 100 mil supostamente ao delegado Fábio Pinheiro Lopes, o Fábio Caipira, em uma troca de mensagens entre dois investigados da Operação Exchange, da Polícia Federal, que desarticulou um esquema de lavagem de R$ 10 bilhões do tráfico internacional de drogas do Primeiro Comando da Capital (PCC). O próprio delegado, indignado com a citação ao seu nome, requisitou a investigação à Corregedoria. "É uma calúnia e vão pagar por isso", reagiu Caipira.

Em um trecho da conversa entre Victor Henrique de Oliveira Shimada, apontado como líder do esquema e primeiro brasileiro sancionado pelos Estados Unidos por suposta ligação com o PCC, e Romany Cutolo Bonente, o "Roma", que se diz advogado, surgiu a referência ao nome do delegado.

"Roma" faz uma série de cobranças a Shimada para que ele efetue pagamentos pendentes a pessoas identificadas por "Ratão" e "Feu". Em meio ao diálogo, ocorrido em 15 de maio de 2024, "Roma" afirma que também precisa concluir uma transferência de R$ 100 mil supostamente destinada a "Fabio Caipira do Deic".

Fábio Caipira não é alvo da Operação Exchange. A única referência a ele ocorreu na conversa entre os alvos da investigação da PF. Não há nenhuma outra menção a Fábio Caipira.

Delegado há 34 anos, ele é o diretor do Departamento de Operações Policiais Estratégicas (Dope) e já comandou o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic). Sua atuação é marcada por grandes operações contra o crime organizado, incluindo a prisão de André do Rap, um dos traficantes mais influentes do Primeiro Comando da Capital (PCC), que hoje está foragido.

Ao Estadão, Caipira afirmou que não conhece os dois investigados. Shimada está foragido. A reportagem pediu manifestação da defesa. "Roma" não foi localizado.

O próprio delegado tomou duas medidas, ainda na sexta-feira, 3, quando soube da menção a ele. Inicialmente, foi à 14.ª Delegacia de Polícia, em Pinheiros, bairro onde reside, e fez queixa de calúnia contra "Roma", que o citou no diálogo capturado pela PF.

Depois, peticionou à Corregedoria da Polícia por abertura de uma investigação. "Eu sou o primeiro a querer isso passado a limpo. Essa calúnia tem de ser apurada. Nunca ouvi falar desses caras, não os conheço, sequer os investiguei", disse Fábio ao Estadão.

O delegado está convencido de que seu nome foi citado porque ao longo de sua carreira comandou investigações e blitzes contra nomes importantes da hierarquia do crime organizado. Nessa senda, atraiu desafetos. Ele já fez um levantamento sobre "Roma". "É um sujeito que já foi condenado a dois anos por furto e tem passagens criminais por estelionato e extorsão."

Colegas de Caipira lembram que é uma estratégia usual do crime o que se chama de "venda de fumaça" - quando um suspeito diz a outro que precisa repassar determinada quantia a alguma autoridade policial ou a um promotor.

A transcrição do diálogo faz parte dos autos da Operação Exchange. "Roma" pede a Shimada que entre em contato por outro telefone e envie os dados da conta para o pagamento. Diante da falta de resposta, ele demonstra irritação e envia um áudio no qual acusa Shimada de ter utilizado indevidamente dinheiro de "Ratão", afirma que o homem conhecido como "Feu" seria ainda mais perigoso e diz que não iria mais defendê-lo perante os integrantes da quadrilha.

Para o juiz Paulo Cezar Duran, da 7.ª Vara Federal Criminal em São Paulo, que autorizou a Operação Exchange, "a eventual destinação de R$ 100 mil a um ex-alto funcionário da Segurança Pública do Estado de São Paulo, no contexto da gestão de conflitos internos de uma organização criminosa, aponta para possível prática de corrupção ativa, fato que merece aprofundamento investigativo específico".

Em dezembro de 2024, Fabio Caipira foi afastado do cargo de diretor do Deic após ser citado na delação de Vinícius Gritzbach, empresário e corretor de imóveis que, segundo as investigações, atuava na lavagem de dinheiro para o PCC. Gritzbach foi assassinado aos 38 anos, em 8 de novembro de 2024, em uma execução sumária a tiros de fuzil no Terminal 2 do Aeroporto Internacional de São Paulo-Guarulhos.

Gritzbach afirmou ter pago R$ 4,2 milhões a um advogado que prometia obter vantagens em uma investigação sobre lavagem de dinheiro conduzida pelo Deic em 2022. Fábio Caipira foi inocentado. À Corregedoria, o advogado desmentiu o delator e disse que "jamais o delegado Fábio Pinheiro Lopes exigiu ou solicitou qualquer vantagem espúria".

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