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O carioca Robson Sampaio de Almeida se mudou para os Estados Unidos na década de 1950. Em Houston, no Texas, estudava jornalismo, televisão e produção cinematográfica, além de trabalhar na empilhadeira de uma fábrica de papel.
No dia 22 de julho de 1955, seu aniversário, foi atingido na cabeça por um rolo de papel que se soltou enquanto era transportado. Robson ficou paraplégico, e, duas décadas depois, traria a primeira medalha paralímpica para o Brasil, nos Jogos de Toronto-1976, junto de Luiz Carlos Costa, o "Curtinho".
Tal conquista, uma prata no lawn bowl, uma modalidade semelhante à bocha, foi um dos primeiros passos do País na construção do caminho que o levou a ser uma potência da Paralímpiada. Não à toa, ficou em quinto lugar em Paris-2024, com 88 pódios: 25 ouros, 25 pratas e 38 bronze.
"Não consigo nem imaginar o que significava ser um atleta paralímpico naquela época, na década de 1970. Lamentavelmente, as pessoas ainda enxergam a pessoa com deficiência de duas formas: ou você é um super-herói ou um coitado", comenta Yohansson Nascimento, vice-presidente do Comitê Paralímpico do Brasil (CPB) e dono de seis medalhas paralímpicas no atletismo.
Teto das Arenas Cariocas 1, 2 e 3 apresentam marcas de sujeira na parte superior. Velódromo, à direita, ainda tem estragos no teto causado por incêndio em abril. Centro de Tênis pode ser visto ao fundo.
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Nesta quinta-feira, Robson, morto em 1987, e Curtinho, que tem 79 anos e trata quadro de Alzheimer, foram homenageados pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) em um evento de celebração do aniversário das medalhas com a presença de familiares, em São Paulo.
"Robson foi um pioneiro em diversas questões no Brasil. Havia uma lacuna na história do esporte brasileiro", comenta Noemia Sampaio de Almeida, 60, sobrinha criada como filha de Robson. "A gente se sente muito honrado por estarem finalmente dando a ele o lugar que ele merece. Ele era muito mais que um atleta para nós", acrescenta Paulo Lopes, 64, sobrinho do paratleta.
O encontro entre os dois homens que iniciaram a história de triunfos do Brasil aconteceu no Clube do Otimismo, instituição fundada por Robson com a verba da indenização recebida em razão do acidente de trabalho. No espaço, administrado por ele e sua família, existia um regime de internato para abrigar pessoas com deficiência que não tinham condições de realizar fisioterapia de outra forma.
O clube foi estruturado com base nos moldes de reabilitação que o paratleta conheceu nos Estados Unidos, os quais eram inspirados por ideias do neurologista alemão Ludwig Guttmann - considerado o pai do esporte paralímpico. Essa metodologia é focada na reabilitação por meio do esporte.
Luiz Carlos foi um dos atendidos do projeto e virou o "fiel escudeiro" de Robson. Passou a trabalhar no clube, em uma oficina de conserto de eletrodomésticos. "A gente gostaria que ele estivesse presente na homenagem. Ele sequer tinha a medalha em sua posse, sequer conseguiu ser aposentado", conta Noemia.
O Clube do Otimismo oferecia oportunidade de reabilitação gratuita para pessoas que não tinham acesso a esse tipo de suporte no Brasil. Também trouxe cadeiras de rodas e próteses mais modernas dos EUA. Posteriormente, fez uma parceria com a empresa Bauer para fabricar modelos semelhantes. O próprio governo do Rio encaminhava pessoas com deficiência para serem tratadas no local.
MEDALHA E JOGO COM VETERANOS DA GUERRA DO VIETNÃ
No âmbito paradesportivo, Robson trouxe dos Estados Unidos as regras do basquete em cadeira de rodas. Contratou um técnico para treinar a equipe e realizou, em 1958, a primeira disputa interestadual contra o time de São Paulo.
Representando o Brasil, que só foi ter um um comitê paralímpico a partir de 1995, o Clube do Otimismo participou pela primeira vez dos Jogos Paralímpicos, em Heidelberg, na Alemanha, em 1972, período em que a prática do esporte adaptado já era conhecida no Brasil, embora ainda sem políticas públicas ou valorização.
Na Paralimpíada seguinte, veio a medalha inédita. Robson e Curtinho disputariam apenas o basquete, mas resolveram experimentar o lawn bawn, pois os competidores também podiam disputar outras modalidades durante o evento.
Em intercâmbio promovido pelos Partners of América: Luis Carlos (Curtinho), Roberto Ramos (Robertão), Robson Sampaio de Almeida e atrás em pé Paulo Almeida (sobrinho e Robson) que era auxiliar da delegação.
Antes de construir sua história paralímpica, Robson Sampaio desbravara o esporte adaptado em outros eventos, como os Jogos Americanos de Cadeiras de Rodas de 1963, em Nova York. Convidado, competiu em modalidades como boliche, arco e flecha, arremesso de disco e corrida. Sua participação foi de caráter honorário, uma vez que a competição era voltada para clubes nacionais dos Estados Unidos.
Para sempre conectado aos EUA, liderou, em 1975, uma excursão do Clube do Otimismo pelos estados de Virgínia, Maryland e Washington D.C. para jogar basquete em cadeira de rodas contra veteranos da Guerra do Vietnã.
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As competições eram consequência de um trabalho que tinha o foco na inclusão das pessoas com deficiência, "sem autopiedade ou assistencialismo", como diz Noemi. O clube oferecia oficinas profissionalizantes de gráfica, conserto de eletrodomésticos e fabricação e manutenção de cadeiras de rodas.
"Eles eram contra a prática comum de que as pessoas com deficiência tinham de ir para a rua vender balinha. Porque afetava a imagem delas, ia na contramão da luta pela inclusão. Muitos fizeram isso e se sustentavam assim, mas o clube tinha um lugar de profissionalismo."
Como o trabalho feito por lá ficou bastante conhecido, pessoas abandonavam crianças com deficiência à porta da instituição. Robson criou um espaço de acolhimento em frente à sede para acolhê-las e, em parceria com a Secretaria de Educação, alfabetizá-las.
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Também foi um dos grandes propagadores das primeiras campanhas de vacinação contra a poliomielite no início dos anos 1960. Ajudou a fundar, ainda, a Ande (Associação Nacional de Desporto para Deficientes), ao levar a ideia para Aldo Miccolis, conhecido como o "João Havelange do esporte paralímpico", então preparador físico do exército.
Segundo os familiares, o Clube do Otimismo ainda existe no bairro do Méier, em atividade reduzida, "quase se arrastando", não mais sob o comando da família, após enfrentar dificuldades por falta de recursos e políticas públicas. Existe uma proposta para alterar o nome da rua onde ele fica, a Rua Hermengarda, para Rua Robson Sampaio de Almeida, além do desejo da família de transformar o espaço em um memorial para preservar o acervo histórico de fotos, documentos e filmes da instituição.
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