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O fiscal aposentado da Receita paulista Alberto Toshio Murakami, de 63 anos, o "Americano", foragido da Justiça sob suspeita de integrar um esquema de corrupção no ressarcimento de ICMS a grandes varejistas e atacadistas, recebeu R$ 186 mil em salários desde agosto, em valores líquidos. Denunciado pelo Ministério Público no âmbito da Operação Ícaro, Murakami vive em Clarksville, nos Estados Unidos, em uma residência de alto padrão avaliada em cerca de R$ 7 milhões.
Ao Estadão, a Secretaria de Estado da Fazenda e Planejamento afirmou que "os proventos de aposentadoria são pagos conforme a legislação vigente, não havendo previsão legal para a suspensão desses pagamentos no curso das investigações ou procedimentos disciplinares". Segundo a pasta, caso sejam comprovadas as condutas apuradas no Processo Administrativo Disciplinar (PAD) instaurado, poderá ser aplicada a penalidade de cassação de aposentadoria.
A reportagem pediu manifestação da defesa de Murakami. O espaço está aberto para manifestações.
O Portal da Transparência do Governo de São Paulo indica que "Americano" recebeu R$ 20.572,09 em agosto, mês em que a Operação Ícaro foi deflagrada, e, já foragido, outros R$ 20.547,09 em setembro e R$ 20.522,09 em outubro. Em novembro, o valor foi de R$ 18.858,98, seguido de um aumento em dezembro, quando os proventos chegaram a R$ 43.694,35, em valores líquidos.
Em janeiro, o montante pago foi de R$ 18.830,88. Em fevereiro, o nome de Murakami não aparece na lista de pagamentos da Secretaria da Fazenda. Em março, os repasses saltaram para R$ 43.608,44.
Foi em março que, por meio de sua defesa, "Americano" comunicou à Justiça de São Paulo que não pretende mais retornar ao País porque tem um "projeto de vida" a realizar nos EUA. Para investigadores da Operação Ícaro, a estratégia do fiscal foragido representa um acinte à Justiça.
Aposentado desde janeiro de 2025, Murakami, ou "Americano" - como é conhecido por seus colegas que também são alvos da Operação Ícaro -, é suspeito de receber vultosas quantias em espécie do empresário Aparecido Sidney Oliveira, dono do Grupo Ultrafarma.
Ele trabalhava na Delegacia Regional Tributária da Capital III (Butantã), posto fiscal em que a farmacêutica pedia o ressarcimento de ICMS-ST. "Americano" analisava os pleitos da empresa e emitia pareceres pelo deferimento, beneficiando-a diretamente, segundo o Gedec - unidade do Ministério Público que combate delitos de ordem econômica e descobriu os caminhos da corrupção na Fazenda via ressarcimento indevido, mediante subornos milionários, de créditos de ICMS-ST.
Alberto Toshio Murakami era o fiscal mais próximo de Artur Gomes da Silva Neto, apontado como mentor de um esquema que teria arrecadado ao menos R$ 1 bilhão em propinas de grandes redes do varejo em troca do deferimento acelerado de créditos de ICMS-ST.
Preso desde a deflagração da Operação Ícaro, em agosto de 2025, Artur chegou a negociar um acordo de delação premiada com o Gedec, mas as tratativas não avançaram. Os promotores avaliaram que as informações apresentadas eram insuficientes e já haviam sido obtidas no curso da investigação. À época dos crimes, o fiscal estava lotado na Diretoria de Fiscalização, onde atuava como supervisor de redes do comércio varejista.
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Casado com CEO e alvo da Interpol
Foragido desde agosto, Alberto "Americano" alegou à Justiça que, antes de se tornar alvo de mandado de prisão preventiva na Operação Ícaro, já tinha um projeto de vida no exterior e que sua mulher é CEO de uma empresa nos EUA de importação de mármore.
No pedido de revogação da prisão à Justiça, o qual foi negado liminarmente pela desembargadora Carla Rahal, da 11.ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça do Estado, a defesa do fiscal apontou que ele "é réu primário, portador de bons antecedentes, com residência fixa - tanto no Brasil quanto nos EUA - e família constituída com duas filhas, netas e esposa".
Em janeiro, a Justiça de São Paulo mandou incluir na Difusão Vermelha da Interpol o nome de Alberto Toshio Murakami. A decisão foi tomada pela 1.ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Dinheiro, que acolheu pedido de promotores do Gedec.
A defesa de Alberto Murakami argumenta que "a decisão de residir fora do País foi tomada e concretizada de forma natural, como um projeto de vida pós-aposentadoria, pois sua esposa e filhos já residem há mais de 20 anos nos Estados Unidos da América".
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